ESPECIAL: O Bando faz história no incentivo à leitura.
Quando, em março de 2007, o projeto "Bando da Leitura", iniciou suas atividades, nas reuniões eram feitas na sala da casa da fundadora Lucélia Clarindo, professora aposentada. Ela abriu as portas da casa e fez do seu quintal um mundo mágico para que a cada encontro dezenas de crianças se aproximassem de fadas, heróis, bichinhos falantes e outros seres mágicos. A professora é hoje destaque como a protagonista de uma bel e duradoura história de incentivo à formação de muitos pequenos leitores. O projeto voluntário é atualmente um espaço alternativo de leitura reconhecido pelo Ministério da Cultura conta com um acervo de cerca de três mil livros.
A professora Lucélia, toda sexta-feira, para cerca de 20 crianças ou mais, transforma a sombra de uma árvore em palco e aparece com uma valise metálica e colorida nas mãos. Como se estivesse chegando de uma viagem imaginária, assim inicia o encontro. Durante a "contação" das histórias, Lucélia abre espaço para as crianças darem suas opiniões ou tentarem adivinhar o rumo da fábula. De uma maneira divertida e interativa, os participantes acabam se envolvendo com as histórias. Logo que terminar de contar as histórias, a professora abre a porta da biblioteca do projeto para a criançada.
"Este é um momento em que eles ficam totalmente livres. Podem escolher os livros que quiserem. Algumas crianças até estranham essa liberdade, mas acabam se acostumando. Às vezes, eu fico quieta, só assistindo à discussão delas sobre os livros", relata Lucélia. O método de aprendizado usando nos encontros do bando surpreende as crianças que visitam o projeto pela primeira vez. Isto porque dá espaço e liberdade para eles, diferente do que estão acostumados na escola tradicional. Mas é velho conhecido de dezenas de pequenos "bandoleiros" que têm compromisso marcado toda semana no quintal e na biblioteca "encantados do bando".
Tudo teve inicio em 14 de março de 2007. "Por iniciativa de duas meninas, marcamos um encontro naquela tarde para falar sobre poesia. Na quarta-feira seguinte, as próprias meninas trouxeram mais cinco crianças, no terceiro encontro, já era 13 crianças. E assim o Bando foi aumentando", relembra a fundadora. Recorda ainda, que logo que saiu da última escola em que lecionou, quando as crianças voltaram às aulas sentiram sua falta. "As leituras que eu passava para elas não eram apenas atividades da escola, eram leituras para a vida. Tanto que elas queriam continuar lendo além dos muros da escola", salienta Lucélia, que sempre estimulou seus alunos a lerem por prazer como ela aprendeu quando criança na sua casa.
Diversas pesquisas realizadas pelo mundo afora mostram que, a criança que lê e tem contato com a literatura desde cedo é beneficiada em diversos sentidos no seu desenvolvimento. Para exemplificar, registram: aprender melhor, pronunciar melhor as palavras e se comunicar melhor de forma geral. Por meio da leitura, a criança desenvolve a criatividade, a imaginação e adquire cultura, conhecimento e valores.. O bando da leitura se encaixa nessas pesquisas, porque trata-se de um espaço que atende à sociedade no geral e oferece maior riqueza para o ser humano, ou seja, de forma livre os livros, a leitura, o conhecimento, no espaço físico onde está instalado.
A pedagoga e especialista em educação infantil, Juliana Sauerbier, trabalha atualmente na Secretária Municipal da Educação, ressalta que este projeto valoriza a leitura como fonte de prazer, de entretenimento, de comunicação, de informação. Enfatiza que se trata de um hábito poderoso que nos faz conhecer mundo e ideias, ajuda a criar familiaridade com o mundo da escrita, prepara para os estudos, para o trabalho e para a vida. "Isso quer dizer que o contato com os livros pode mudar o futuro dessas crianças, portanto, o Bando é um importante espaço de transformação social".
A especialista salienta a importância de seus filhos participarem do projeto. "Sou da comunidade, moro na região de Oficinas há alguns anos e sempre acompanhei e acompanho o trabalho da professora Lucélia. Acho um projeto importante para a sociedade. E meus filhos adoram participar do Bando. Quase toda semana estão presentes realizando as atividades diversificadas como: leitura de livros variados, teatros, dramatizações, poesias, contação de histórias, brincadeiras, construções de sucatas, entre outros. Meus filhos se entusiasmam com o fato de poder realizar empréstimos de livros. Levá-los para a casa (sem limites de vezes). Leem todos e ainda fazem a leitura para o irmão menor, incentivando o gosto pela leitura desde cedo".
A fundadora do Bando, conta que sempre estimulou seus alunos a terem por prazer, e com o projeto deu continuidade a este estimulo, saliente que "É aquele presente que você não espera, mas que no fundo era tudo que você queria". Lucélia relembra que "quando eu me aposentei, olhei para minhas coisas e pensei, qual será agora a pauta da minha vida, além das oficinas, palestras que ministro. Eu comecei a rever a minha vida que foi toda composta, toda constituída em função de uma vida literária. Eu nunca imaginei que iria receber esse presente".
A professora Lucélia enfatiza como surgiu o interesse pela leitura:"Eu que na minha infância li muita quantidade, pouca qualidade, que hoje faz parte da minha referência literária, não podia ficar num dia a dia assim sem muito sentido. Depois de dez anos quando recebo as crianças aqui na minha sala, eu as agradeço por estarem aqui. O Bando tomou uma dimensão bem maior do que eu um dia pude imaginar. Eu costumo dizer que o bom do bando é ser bom. O bando é simples! Tem bondade, carinho, histórias, momento de criação, liberdade e fantasia. E tudo no quintal da minha casa".

Comentários
Postar um comentário